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Menos telemóveis nas escolas, mais literacia digital: o que muda no regresso às aulas

27.08.2026

Menos telemóveis nas escolas: o que muda no regresso às aulas

O regresso às aulas traz uma nova realidade às escolas portuguesas. No ano lectivo 2026/2027, a restrição ao uso de smartphones é alargada ao 3.º ciclo, abrangendo os alunos até ao 9.º ano. A decisão surge depois de a experiência nas escolas ter revelado melhorias na socialização e na disciplina1.

Menos telemóvel não significa menos digital. O desafio passa agora por preparar os mais jovens para utilizarem melhor a tecnologia, com mais conhecimento, sentido crítico e responsabilidade.

A Inteligência Artificial é um dos exemplos mais evidentes desta mudança. O Governo prevê desenvolver e implementar, entre 2026 e 2027, uma Estratégia para o Digital e IA na Educação, que pretende preparar escolas, professores e alunos para integrar estas tecnologias no processo de aprendizagem2. A formação dos professores acompanha esta evolução, com iniciativas já dedicadas à utilização prática da IA generativa no ensino3.

A realidade mostra que os jovens já estão um passo à frente. Em Portugal, 85% das crianças e jovens entre os 9 e os 17 anos utilizaram ferramentas de IA generativa no último mês, dez pontos percentuais acima da média europeia, e quase metade já recorre a estas ferramentas para tarefas escolares4.

A questão deixa, por isso, de ser apenas se os jovens devem ou não utilizar Inteligência Artificial. Importa sobretudo ensinar-lhes quando, como e para quê utilizá-la. É uma aprendizagem que deve ser partilhada pela escola e pela família.

Para os pais, acompanhar esta nova realidade não significa ter de dominar a tecnologia. Significa conhecer as ferramentas que os filhos utilizam, conversar sobre a forma como as usam e estabelecer alguns princípios:

  • Usar a IA para aprender, não para substituir a aprendizagem. Pedir uma explicação diferente sobre uma matéria, criar perguntas para testar conhecimentos, treinar um idioma ou organizar um plano de estudo são bons exemplos. É igualmente importante definir uma regra simples: a IA deve ajudar a pensar e a aprender, nunca fazer pelo jovem aquilo que ele precisa de aprender a fazer sozinho.
  • Questionar e confirmar. A IA pode apresentar respostas erradas ou incompletas como se fossem verdadeiras. Comparar fontes, confirmar factos e questionar a informação são competências essenciais num mundo onde temos cada vez mais informação à nossa disposição.
  • Proteger a informação pessoal. Fotografias, documentos, dados pessoais ou informação privada não devem ser partilhados, seja com ferramentas de IA, seja noutras plataformas digitais, sem compreender onde ficam esses dados e como poderão ser utilizados.
  • Definir regras e tempos de utilização. Em casa e na escola, é importante estabelecer momentos e limites para a utilização da tecnologia. Mais do que proibir, trata-se de encontrar um equilíbrio que permita tirar partido do digital sem comprometer o descanso, a concentração, a atividade física e o bem-estar.

O Conselho Nacional de Educação reforça precisamente esta necessidade, defendendo que a literacia em IA deve fazer parte das competências essenciais para uma participação plena, crítica e segura na sociedade5.

Este regresso às aulas pode, assim, representar um novo equilíbrio: menos tempo com o telemóvel e uma utilização mais consciente e útil do digital. Porque preparar os jovens para o futuro é também dar-lhes espaço para conversar, brincar, conviver e desenvolver competências tão importantes como a empatia, a socialização e as relações com os outros. A tecnologia deve fazer parte desse futuro — sem ocupar todo o espaço.

Fontes
(1) PLANAPP / Ministério da Educação, Ciência e Inovação — Avaliação da recomendação sobre a utilização de smartphones nas escolas e medidas para o ano letivo 2026/2027.
(2) Estratégia Digital Nacional — Plano de Ação 2026-2027, Ação #19, Digital e IA na Educação.
(3) Direção-Geral da Educação — Inteligência Artificial Generativa aplicada às práticas de Ensino.
(4) EU Kids Online Portugal (2026) — Crianças e Jovens (9-17 anos) e Inteligência Artificial Generativa em Portugal, estudo realizado junto de 2.111 crianças e jovens.
(5) Conselho Nacional de Educação — Recomendação n.º 4/2026 — Inteligência Artificial na Educação.